domingo, 2 de março de 2008

Desencanar e Desencarnar


Às vezes uma preocupação nos atormenta e um amigo nos sugere: desencana. É uma gíria que sugere despreocupar.
Mas na hora da dor é difícil desencanar. A gente fica encanado, preso dentro de um cano que nos atormenta.
Nessa hora não vislumbramos saída. E por isso ficamos encanados. Encanados e enganados por acreditar que não há saída.
Por maior que seja o sofrimento, no futuro ele desaparecerá, não sendo mais que uma mera gota d’água, uma coisa pequena.
Nós nos identificamos tanto com o sofrimento que fica difícil nos separar dele. Por isso às vezes é importante a opinião de alguém de fora.
Haveria um jeito de ficarmos de fora mesmo em meio ao sofrimento?
Fulano está sofrendo e fica difícil separar o sofrimento de fulano.
Então qual é a saída?
Primeiro precisamos entender quem é o Fulano.
Esse fulano é uma alma que vestiu uma personalidade para poder habitar o mundo físico. Essa personalidade composta do corpo físico, emocional (astral) e mental é perecível e um dia será abandonada, morrerá.
Então não mais seremos o tal Fulano.
Na verdade, nós não somos Fulano e sim estamos Fulano.
Crentes que somos Fulano, nós o glorificamos e fazemos tudo por ele.
Eu dou um mergulho na piscina e saio dela molhado. Então eu digo: “Eu estou molhado”. Eu não vou dizer: “Eu sou molhado”. Percebemos que o molhado pertence a um nível superficial e passageiro. Daqui a pouco estarei seco.
Isso é uma representação em miniatura do que acontece com o Fulano, a nossa personalidade.
Então a proposta é mentalmente desencarnarmos, abandonar a “carne” do Fulano, pensarmos como alma e não como personalidade.
Nosso corpo ao pó voltará, assim como todos os problemas que ele vive.
Se eu conseguir me desapegar da minha forma de Fulano, também me desapegarei do sofrimento ligado a ele.
Quantos sofrimentos terríveis já ficaram para trás esquecidos? Todos sabem disso.
Podemos acelerar esse processo usando nossa inteligência, não supervalorizando o que tem pouco valor.
Todos nós nascemos para morrer e sofremos muito quando não aceitamos a morte. Porém, só o corpo morre. Alva sobrevive e mais livre na ausência do peso da carne. Mesmo assim, essa liberdade é temida.
Valorizamos tanto o transitório (a personalidade) que esquecemos o valor do imperecível (a alma).
Portanto, vamos exercitar o pensamento luminoso de que o sofrimento é transitório.
Vamos lembrar que a personalidade que é uma, vive muitos sofrimentos em sucessão. Uma personalidade e muitos sofrimentos.
Quantos sofrimentos desapareceram antes da personalidade perecível desaparecer?
Assim como tantos desejos tivemos e não temos mais.
Se a personalidade é perecível, fadada a morrer, quão mais o é o sofrimento.
Erga-se, não se deixe absorver pelo sofrimento. O tempo é implacável com a personalidade e com o sofrimento. Ele os aniquila sob a lei misericordiosa de Deus.
Se está difícil desencanar, desencarne. Você é mais que uma personalidade vulnerável ao sofrimento. Exercite o positivo “ficar fora de si”.

Ronaldo José Corrêa




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